4.1.06

happy hour - conto

HAPPY HOUR

Saí de casa, como de costume, às sete e meia da noite. Cadu me acompanhava com seu andar enviesado. Dei duas tragadas no cigarro e joguei a guimba perto da lixeira. Do outro da lado da rua, que era sem saída, dois rapazes, entre catorze e quinze anos, também tragavam. Olhavam-me assustados, como se levantassem suspeita de algum crime. Eu dirigi-lhes um olhar de certo desprezo, mas tentei compreendê-los: aquela era a época da vida, quando não se precisa de fuga. Os dois sumiam meio à fumaça toda, seus olhos se perdiam na penumbra. Cadu latia inocente, contemplando o fim da rua e a lixeira repleta de restos de comida. Todos os dias, eu saía para passear com ele; era o único momento em que eu podia parar e pensar em coisas amenas. Era o único momento em que eu não podia me considerar vítima de minhas decisões. Contudo, parecia em vão, pois eu logo teria que voltar ao meu quarto, à minha sala, aos lamentos e gritos de minha pobre mulher, aos pedidos e choros de meu pequeno filho, ao fundo do prato insosso em minha cozinha. Lá fora, eu conseguia fugir, mas eu ainda teimava em sonhar em fugir realmente. Pobres daqueles lá dentro, eu não os culpo. Eles não têm culpa; eu sou o seu algoz. O cachorro lambia meus sapatos gastos e cheirava a bainha de minha calça velha. O nó em minha garganta parecia mais apertado do que o da gravata, uma falsa italiana. Eu mentia, mentia e sabia disso, mas mentia mais ainda para que ninguém soubesse. Lambendo a minha imunda sola do sapato ou as minhas mãos, Cadu sabia de tudo; seus olhos eram censores, mas se calavam ante meu compadecimento. Eu me compadecia com todos, comigo, com ele, e com os outros lá dentro, além dos meninos se perdendo naquela nuvem de fumaça. Andei até a esquina, procurando esconder-me, procurando engolir aquele nó, e a dor de imaginar continuando, repetindo tudo de novo, me deixava em pânico. Algumas menininhas desciam de bicicleta a rua que cruzava a minha. Elas sorriam, e como eram lindos e sinceros os seus sorrisos! Elas pedalavam, seus cabelos esvoaçavam, e a noite lhes protegia dos maus pensamentos, ou talvez a tenra idade? Elas descobririam um dia os seus algozes ou suas vítimas. Meu cachorro latia para elas, e elas em retribuição lhe davam o afago na cabeça e puxavam de leve suas orelhas. Minha sombra ao lado do poste parecia acreditar... acreditar... Os rapazes saíram da escuridão e acenaram para mim desconcertados. Um deles parecia o meu primo falecido há dez anos. O outro tentava parecer com o outro, nos gestos, na postura, no tique nervoso. Cadu me puxou para a casa, ele sempre me lembrava de voltar à realidade. Procurei no bolso mais um cigarro, algum trocado, e encontrei apenas restos de papel picado. Joguei-os fora. Ele latiu. Peguei-os um a um, e os pus finalmente na lixeira. Meu cachorro era educado. Voltamos para casa. Cadu parou de balançar a cauda, pôs a língua para dentro e rosnou baixinho. O inferno nos esperava, ou quem sabe um paraíso perdido?