philosophia, poesia e afins
O empurrão que faltava
Hoje fui ao cinema. Assisti a um filme, sobretudo, instigante. Os contos proibidos do Marquês de Sade. Dentre as variadas discussões suscitadas pelo mesmo, como as perversões sexuais, o desejo incomum, o prazer através da dor e das maneiras mais inusitadas de obtê-lo, uma me chamou atenção em particular. Um dos personagens diz que "o homem é composto do bem e do mal, ninguém está isento disso." O que quero dizer com isso, ou melhor, o que isso me faz pensa? As inúmeras nuances humanas: a insanidade, o medo, a revolta, o prazer insatisfeito, o inconsciente em ebulição. Antes que eu fuja do principal objetivo que me impulsionou a escrever, preciso me deter a apenas uma dessas nuances: a hipocrisia.
Não falo da hipocrisia como uma palavra desconexa, falo da hipocrisia como uma característica do homem, principalmente o contemporâneo, revestido de uma vaidade e soberba dantes não imaginadas. Ilustro com uma pequena parcela do que me aconteceu. Na saída do cinema, tento ligar o carro, mas o "engraçadinho" não responde aos meus gritos nem lamentações. Resolveu me deixar ali, em meio aos carros buzinando, naquele mavioso estacionamento daquele shopping de reputação inabalável. Peço, então, ajuda a um dos funcionários responsáveis pela vigilância do estacionamento para me dar uma mãozinha, ou seja, um empurrãozinho para ver se o carro pegaria. Ele até foi gentil ao me responder aquele - até certo ponto doloroso e quase esperado - NÃO. Claro. Eu, um mortal cliente, estava a atrapalhar o trânsito de outros veículos que ali circulavam. O tal funcionário, na sua bondade, dizia que estava a cumprir ordens superiores, pois não era permitido fazer aquele tipo de serviço. Evidentemente que não. Aquela situação abalaria a reputação do shopping, de seus donos, ou dono, de seus clientes apressados, ricos, civilizados, de uma virtude incólume. Será que ninguém passou por situação daquela? Será que ainda se pode acreditar no homem? Em seus vícios ou virtudes? Será que fui errado em pedir ajuda? Será ...? Sem mais delongas, finalmente, três rapazes, funcionários de um supermercado, minhas últimas esperanças, vieram me dar o bendito empurrão.
O carro funcionou, mas ainda estou em dúvida se a hipocrisia dos superiores daquele shopping foi o cerne da reflexão ou um resquício de senso humano e fraterno daqueles três. Tentei até resgatar a crença no aperfeiçoamento do homem através da destruição das máscaras por ele criadas, da compreensão dele mesmo como ser falível, ser em construção. Continuo tentando, vivemos para isso, não é verdade? Hipocritamente, alguém diria: NÃO.
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