1.6.05

21 gramas

Talvez a melhor resposta para os questionamentos do personagem interpretado por Sean Penn neste filme - 21 gramas - seja: A vida vale muita coisa. O que não vale é o quanto você paga por ela e o quanto você se desperdiça nessa tentativa. Que limites nos separam da morte que dilui todas as certezas antes visitadas e antes acreditadas? Como subverter a armadilha de nossa falta de redenção e de salvação. Leia Paulo Coelho, leia dalai-lama, leia a pilha toda da moda-mídia dos livros de auto-ajuda e tenha seus cinco centavos de troco. Isso vale mais que 21 gramas. Compre pastel na esquina e morra infartado numa noite tão bela e tão triste, ao som da Sonata ao luar de Beethoven. Isso vale 21 gramas. Desabar em pranto quando o incenso não nos fez esquecer os problemas mesquinhos de nossa existência. Isso custa 21 gramas. Deserção. Sofrimento. Solidão. Dinheiro. Sentimentos falsos jogados nos cassinos de nosso cotidiano e à venda no atacado de nossa televisão refrigerada e particularmente asséptica e feliz. Isso vale imensamente 21 gramas, sem mais nem menos. E somos mais? Que valores nos dão? Que valores temos? O que quer dizer o número 21? E quantos gramas nos sobram ao sermos enterrados numa grama que nunca vamos ver mais verde? Que sombras nos acompanham quando imbuídos de uma felicidade neutralizada pelo primeiro maremoto de tolices e desamores pela frente? Onde está a balança que nos avalia e que nos confronta com nossos olhos no espelho. O velho morre de caduco e de adoção do pelo tédio. Morrer. Calar. Definhar como a rosa na janela de um quadro esquecido. A natureza morta agüentando firme. Transeuntes em transe. Hecatombe. Vigília. Última dose de uma droga revigorante. Dêem-me a passagem para o lugar menos suave que o inferno e mais ardido que o paraíso artificial que nos damos e inventamos em nossas preces repetidas e em nossos desejos fartos e cheios de miséria. Soei falso? Taciturno? Bombástico. Poeira de palavras acres? Isso vale 21 gramas.