4.1.06

às vezes

ÀS VEZES

Às vezes, deveríamos nos disfarçar de alienados e assumirmos uma postura não-dialética, assumir a existência de um alter ego, íntimo, desacordado. A caverna é um habitat, isso não podemos negar. Sair da caverna é absurdo, é doloroso, é ofuscante. Tentar voltar para nos revermos, para assumirmos uma visão acrítica, sem temores, sem preocupações, sem desvelos, sem apegos. Como seria? O que seria do homem sem ele mesmo? O que seria da lua sem o sol? O que seria do pensar sem a antítese? O paradoxo pode confortar mais do que a idéia fixa. Reencontrar nosso eu preso aos grilhões da caverna, vermo-nos alheios à verdade é bem menos doloroso, menos infeliz, menos desgastante, menos tempo perdido, como esse gasto a escrever sobre isso. Conclusão nenhuma, apenas o divagar, flutuar, pairar. É disso que ainda se vive ou tenta-se. Viver de pedaços. Odiar enigmas, mistérios, quebra-cabeças, incógnitas é salutar, às vezes. Assim como, às vezes, sentimo-nos mais felizes com o consciente, com um ego forte, com um superego responsável e cumpridor de sua missão, além de um id descompromissado consigo próprio. Viver sob à penumbra da caverna pode ser absurdo, mas imaginar-se fora dela parece pior, ou melhor? Depende se ainda estamos lá dentro ou já fora. Viver sem causa ou conseqüência parece mais gostoso; é menos sofrimento mental, espiritual. Talvez, estejamos cegos. Os olhos espirituais deixam os olhos físicos errarem, às vezes. Assim como, às vezes, os olhos físicos cegam, ofuscando os olhos espirituais. A dor é imaterial, mas, sobretudo, dor. Cegos ou não, ainda dependemos de reaprender a conviver com um pé além da caverna e outro no interior dela, sem pudor, medo ou culpa. A caverna é um limite, assim como nós próprios e nossas perguntas. Às vezes, apenas, às vezes ...