momento - conto
MOMENTO
Enquanto a água do chuveiro caía em seu corpo ensaboado, eu pensava no infinito de certos momentos belos que ficam presos em quase nenhum lugar, exceto em poemas, telas e esculturas. Imaginava o instante em que o artista apruma-se diante de sua modelo nua e graciosa, diante da beldade que ele tornaria imortal. E nós dois ali parecíamos imortais, não que fôssemos artista e modelo, mas estávamos também perdidos, presos àquele minuto. Mesmo que o sol ainda estivesse por nascer, todos os riscos e dores pareciam valer a pena. Aquilo talvez fosse felicidade, ou coisa semelhante, no entanto, ousar dizer isso, poderia diminuir a tempestade de sensações em que eu me afogava. A paz de que falam os idealistas fazia algum sentido, ao ouvir o som da água, ao ver aquela nudez. Acredito que pude penetrar em sua alma e quase entender seu coração, mas ela me olhou, e o silêncio se desfez. Indagou-me o que olhava; eu apenas me esquivei com uma resposta pueril, mas franca. “Nós”, eu disse sorrindo. Ela sorriu em seguida e mandou-me um beijo, jogando água sobre meu rosto.
Servimo-nos de um quente capuccino; ela, enrolada à toalha, enroscava suas pernas às minhas, e seu olhar de malícia era desconcertante. Conversamos sobre nada, apenas sorríamos, permanecíamos calados, olhávamos para as xícaras, provávamos do café e nos olhávamos novamente. Seus olhos brilhavam, e pude perceber nitidamente que ficavam pouco a pouco inundados de lágrimas. Uma delas caiu sobre seu peito; ela enxugou e pediu que a desculpasse. Eu perguntei por quê; ela me disse que perdoasse as lágrimas e esquecesse aquilo. ‘São tantas coisas’, ela emendou, olhando-me com carinho. Eu disse que se pudesse, que se tivesse lágrimas, também iria chorar para acompanhá-la. E eu estava inundando em todas as lágrimas, minhas e dela. Ela sorriu e encostou a cabeça em meu ombro; sua pele cheirava ao perfume de meu sabonete. De súbito, levantou-se e disse que tinha que ir; concordei e ergui-me, abraçando-a. ‘Eu sei que isso pode parecer para você uma cena de filme romântico, algo bem clichê’, disse a ela, e continuei, perscrutando seu olhar: ‘Mas eu preciso dizer, preciso pedir que fique, pelo menos mais um pouco. Façamos valer o restante do dia, somente este dia, e nada mais. Que eu não vá ao trabalho, que eu falte à reunião de negócios. Eu preciso que você fique. Fique comigo; fiquemos juntos, só hoje.’ E ela placidamente me indagou, desvencilhando-se: ‘O que é clichê?’ ‘Eu’, murmurei quase pedindo que fosse embora; algo em mim se irritava, e então, dei-me conta que nada daquilo valeria a pena, nada daquilo valeria tanto, nada daquilo era especial, nada era de extrema importância, nem mudaria minha vida, nem a falta de sentido do dia. Era tarde, e ela precisava sair, voltar ao seu mundo, pagar suas contas, e eu precisava de tempo, de descanso, de preguiça, de moleza no corpo, de sono, da cama. Eu precisava voltar ao meu conto de fadas: meu mundo real e inteiramente feliz. Ela vestiu-se, escovou os cabelos e disse que deixaria em minha casa, em meu quarto, em minha pia, muitos de seus fios escuros, para que eu pudesse dela se lembrar. Nós sorrimos como duas crianças, e entendi que a vida era um circo, repleto de saltimbancos e de mágicos fazendo e refazendo a mesma cena, e tentando surpreender a platéia. E por mais que minhas conclusões fossem as mesmas de sempre, deu-me vontade de chorar e dizer que eu precisava de mais tempo com ela, que eu precisava mudar, que eu precisava.
A cama rangia, e eu estava envolto de seus braços lânguidos. Nossas vozes eram desnecessárias, assim como nossas dúvidas. Nossos olhos diziam tudo, ou escondiam o que realmente queríamos dizer e sentir. Abraçados no calor do edredom, ela me disse que sabia inglês, e eu pedi que falasse algo naquela língua. Imaginei de modo idiota que ela fosse dizer: ‘I love you’, mas isso seria encantamento demais para uma noite que não pertencia às fadas, nem aos contadores de história. Então, ela começou a dizer pausada e solenemente os dias da semana em inglês. Eu quis sorrir, mas apenas a olhei embevecido; vi a inocência ainda que por instantes. Ela concluiu e me abraçou; nós nos beijamos e adormecemos. No meio da madrugada, quase às quatro horas, passei a observá-la dormir; ela mexia, ressonava, empurrava-me na cama, roçava os dedos dos pés em minha perna; eu admirava tudo aquilo como numa tela de cinema. Se os anjos fossem anjos, todos estariam a dizer amém por aquilo, somente por aquele momento, ou talvez sussurrassem ao seu deus, pedindo que ele congelasse o tempo, que me deixasse morrer, que um dilúvio inundasse a cidade, e que somente naquela cama se encontrasse o único refúgio, que ela fosse a única saída. E os anjos permaneceram calados.
Quando a porta se fechou, tentei olhar para minhas mãos trêmulas. ‘Calma, isso é engano. Tudo vai passar. Durma, você está com sono’, disse a mim, ao tomar um copo de leite. O céu estava nublado e fazia um frio dormente. Deitei no sofá, ouvi o barulho da rua, senti a placidez da manhã e resolvi acreditar que tudo aquilo não passara de mais um sonho ruim, de mais um resultado detestável da bebedeira. Mas tudo continuava no mesmo lugar. E quem sabe os anjos tivessem me ouvido? E se começasse um verdadeiro dilúvio naquele segundo? Não, não poderia ser; era tarde demais, meu refúgio tinha ido embora sem agasalho, e começara a chover fortemente.

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