a terra prometida - conto
A TERRA PROMETIDA
A bala percorreu todo o meu peito e alojou-se ao lado da quinta vértebra cervical. Os estilhaços queimaram a medula. Quando vi todo aquele sangue sujar a camisa, depois a poça debaixo de mim, pensei na morte de meu avô, trucidado pelas navalhas e pontapés de seus ex-partidários. O vermelho vivo ia descendo morno na calçada em que eu fora alvejado, e a madrugada trazia-me a dúvida atroz e insana sobre minha vida. Tentei contar algumas estrelas, mas o céu escureceu demais. Acordado, sabia que tinha sonhado, mas aquela parede reluzente, de frios azulejos brancos me dizia o contrário; eu estava ali, semimorto, intubado, com algumas dores, porém, a angústia era maior e me cortava o restante. Como cheguei até aqui? Eu sabia certamente, no entanto, preferi dormir e imaginar-me longe, bem longe.
Casei com Lenita aos vinte anos. Ela tinha quase dezessete, e era um sábado à noite. Fizemos uma pequena comemoração na casa de uns tios dela, e viajamos para uma casa de veraneio emprestada por seu padrasto. Ela o odiava, mas não poderíamos desfazer daquilo que consideramos uma proeza magnânima, principalmente em se falando daquele sujeito avaro, desonesto e vegetal. Fizemos amor horas, dias seguidos; ela exalava um perfume natural, misturado a um gosto acre na boca, que me fazia ensandecido e maravilhado apreciador de seu sono. Ela ronronava como um gato ao dormir. Tudo acabou quatro meses depois, quando reencontrei uma antiga namorada e Lenita ficou grávida. Os sete meses de uma gravidez complicada, passei ao lado daquela que eu poderia chamar de amante; prefiro chamá-la de anjo presente, que vez ou outra me reaparecia em sonhos. Meu filho nasceu num dia de chuva forte. Seus olhos lembravam os de minha mãe. Viveu apenas doze dias. Meu calvário não havia começado. Tive muitas perdas, e aquela com certeza não seria a pior delas. É melhor perder um filho do que se perder, disse um amigo embriagado, e eu acreditei nele, e ele estava certo.
Passei quatro anos na faculdade de teologia, e terminei abrindo meu próprio negócio: uma locadora de vídeos. Lenita havia concluído um curso de tapeçaria, e dava aulas para crianças numa escola pública. Eu ganhava o dia vendo e indicando filmes. Era um deleite, até o dia em que perdi completamente minha fé. Sempre fui um descrente convicto, mas para não contrariar demasiadamente meus familiares e minhas namoradas, fingia que acreditava em tudo: OVNI, astrologia, vidas passadas, deuses, visões noturnas, casamento. Não preciso contar porque casei, nem porque resolvi estudar teologia, mas... Eu precisava afugentar os meus demônios de milhões de cabeças. Eu precisava atuar. Numa quarta-feira de cinzas, a minha devota esposa e sua amiga predileta saíram de casa juntas às cinco da manhã; foram ver a primeira missa do dia. À tarde, ela voltou com um olhar desconfiado. Nessas horas, as mulheres são as melhores, mas Lenita sempre foi uma péssima atriz; nem fingir orgasmos ela sabia. O padre Nicanor, mentor de uma série de crimes contra a castidade, resolveu dizer que amava a minha mulher na terça-feira de carnaval um ano antes. E naquela dita quarta-feira, eles juntaram mais cinzas sobre um ano de relacionamento. Descobri tudo quando ela voltou cansada da missa da sexta-feira santa, disfarçando sua paixão e seu concubinato com o sacerdote mais abjeto que aquela cidade já vira. Cheirava mal, comia como um porco, vestia-se como um franciscano, de marrom e sandálias de couro surradas, embora não pertencesse a congregação nenhuma. Um néscio sem medidas: não sabia latim, apenas o que aprendera em sua aula com os padres lazarentos; não entendia de arte, nem a sacra; história para ele, somente as da carochinha. E doidivanas. E feio. Barrigudo, suava como um bode, dentes separados, mãos pegajosas e frias. Meu ódio por Lenita só aumentava quando eu o via. Meu resquício de fé infante esvaíra-se desde meu catecismo, quando vi um bispo olhar para as calcinhas de minhas colegas. Atordoado com minha descoberta, em um olhar ele me mandou para o inferno, e hoje estou contando essa história como prova disso. Eu, que não acredito em muita coisa, senti-me fulminado pela sua falsa artimanha em ser puro e casto. A crença na criança que eu era, a crença no adulto que eu pensava ser, a crença no velho que uma vez eu tinha sonhado acabara no instante em que minha doce e escrava Lenita me confirmou o caso e jurou separar-se de mim se eu contasse. E de tão vil e fraco, eu me calei. Não sei bem as razões. A bebedeira me esperava, a bancarrota nos negócios também, e o ciclo natural das coisas me deu outra guinada e me mostrou o quanto é fácil ser indulgente. Difícil é manter-se louco e seguro. Dia após dia eu me trancava na locadora, assistia a filmes do cinema mudo e, depois, me masturbava com qualquer vídeo caseiro pornográfico. Masturbava-me duas ou três vezes, isso dependia do meu tédio e de minha falta de sono do dia. Naquele meio tempo, Lenita urrava dentro da sacristia, crente em deus e no amor eterno. Os crucifixos, turíbulos, hóstias, imagens de santas e de santos olhavam a tudo petrificados. Hosana nas alturas! Algo ainda restava de paraíso.
Aos domingos, próximo a um ascetismo, eu ia para a praça ver a bobagem ambulante daqueles meus conterrâneos. Eu saía apenas de minha quase deserção porque tinha fome e sede, e não era adepto aos jejuns, nem faquir buscando a eternidade. Cães, gatos, pássaros, insetos, gente, tudo aquilo era um zôo. Tudo aquilo era circo para os meus olhos. Eu era engraçado e infantil. Achava ainda aquilo interessante: uma poesia atrás da outra em meio ao mar de hipocrisia e doença. E a principal doença era o homem. Meus clientes me abandonaram, meus parentes saíram da cidade e outros que ficaram morreram, minha sanidade começou a virar pó, e outro começou a rugir. Bebia de terça a domingo: cachaça. Na segunda, tentava me curar da ressaca com analgésicos, caldos de carne e cerveja sem álcool. No meu aniversário de quarenta anos, chamusquei o rosto com um pedaço de farpa acesa e queimei alguns pêlos do braço. Outro dia, inventei de pular bêbado no rio; tive apenas contusões e cortei a cabeça, um pouco acima da nuca. Padre Nicanor pensou em exorcismo, quando disseram que eu estava gritando à noite no cemitério, sentiu-se levemente culpado, mas como ele não acreditava nem em exorcismo, tampouco em pecados, resolveu deixar-me de lado e passou a dar continuidade ao seu plano de beatitude: deixou minha mulher. Eles completavam bodas não sei de que, quando ele, vestido de arrogância e de terno bem passado, disse que não dava mais, que era tudo mentira, que aquilo era tentação de satã, que as coisas perderam seu rumo, e que ele era um homem a serviço do Homem. Lenita chorou mais do que no dia em perdemos nosso Gabriel. Seus olhos vermelhos e inchados não me causaram pânico nem asco, e seus lábios tremulantes diziam que a febre tomara conta de seu corpo; caiu doente por duas semanas. Purgatório, ela pensava, eu estou no purgatório. Muitas histórias terminam com suicídio e a minha não vai ser diferente, disse, olhando-se friamente no espelho. Tomou duas pílulas de vitamina, seguidas de um café amargo e saiu destinada a morrer.
O arcebispo havia convidado o padre Nicanor para vigário de uma grande matriz em outra cidade, e lhe deu o cargo de vice-diretor da Escola dos Filhos de Maria. Aquilo fora a gota d’água para Lenita, e seu intento estava cada vez mais sedimentado em sua cabeça. Os dois se reencontraram após muita insistência da obstinada mulher traída; ela sabia que o padre tendia à homossexualidade, e aquela fuga repentina somente lhe confirmara isso. Pediu um emprego de secretária da paróquia e de cozinheira nas horas vagas. Os clérigos concordaram, mas o coroinha sabia que algo não cheirava bem, e não era o padre Nicanor, pois passou a usar perfume francês, presente do famigerado arcebispo Ângelo Miguel, um homem de posses e de poses importantes. As narinas de Lenita estavam cheias de ódio quando serviu o café da tarde. Era véspera de carnaval, e suas veias do pescoço e das têmporas não paravam de inchar somente em pensar na data. Nicanor dormia numa rede, roncando como de costume. Ângelo cochilara lendo a revista de fofocas da semana. Tudo estava pronto. E o café quentíssimo.
Ainda hoje, não sei a ordem correta dos fatos, entretanto, proponho uma breve descrição do rumo que tomaram as coisas. Padre Nicanor morreu de parada cardíaca antes de chegar ao Hospital da Graça; tivera um colapso nervoso numa semana de estresse e cobrança da Sé, e depois de comer bastante torresmo no almoço, segredou a um seminarista sua paixão por ele; morreu sem ser correspondido. O arcebispo tornou-se cardeal em Roma e aguarda a morte de um outro para ganhar a vaga de reitor de uma universidade católica para filhos de rico; sua obsessão por dinheiro trouxera-lhe dívidas e encontros furtivos num prelado recém-formado por sacerdotes fugidos da Santa Igreja. Eu perdi o resto do nada que eu tinha e fui parar na casa de um gago que me contava piadas todos os dias. Lenita desistiu da igreja e assumiu seu verdadeiro papel: foi mãe de dois meninos, mesmo sem saber o autor do crime da paternidade. Dizem que parou de se vender. Eu não acredito em fantasmas, já disse.
E o autor dos disparos? Esse foi um apaixonado e contumaz freqüentador de uma casa de massagens em que minha esposa trabalhava. Dava-lhe presentes, ofertava-lhe flores, escrevia-lhe poemas em forma de acróstico. Um romântico piegas e inveterado. Soube que ela havia casado, e numa dessas conversas de fim de noite após o sexo perfeito, ele confessou sua paixão e pediu que ela se divorciasse e que abandonasse tudo para fugir com ele. Um ‘não’ foi a resposta exata e seca que estrondou no quarto. Ela lhe deu alguns outros motivos: a gravidez, a culpa por ter me deixado, um amor platônico por uma pessoa comprometida; ainda assim ele estava disposto a tudo. Por fim, deu-me três balaços de presente. (Um, vocês já sabem. Os dois outros penetraram o muro) Havia pedido a deus uma mulher que lhe fizesse crer no amor novamente, e encontrou Lenita, mas arrasado pela desfeita dela, resolveu tomar satisfações com aquele que ele julgara culpado por todas as mazelas, arrependimentos e frustrações que a linda mulher de seus sonhos carregava. Também perdeu a fé, e vive pedindo esmolas na estação de trem, dizendo-se um ateu que sabe latim; virou brinquedo dos outros mendigos e das crianças pedintes. Lenita aguarda a sentença como cúmplice de um crime que não cometeu, e nem sonhou em faze-lo, e a sua maior culpa é não ter se matado com a mesma arma que o terrível coroinha me alvejou. Sim, o desgraçado fora um coroinha atrevido e perdido pelos arroubos da paixão. Encontrara a arma remexendo o guarda-roupa de Lenita, visto que buscava provas sobre o envolvimento dela com o padre: cartas, bilhetes, qualquer coisa.

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