25.6.05

bem e mal

O ALÉM DO BEM E DO MAL

Assim como todos os outros conceitos e expressões nietzscheanos, o ‘além do bem do mal’, primeiramente exposto no livro homônimo, concerne à vida como substância e finalidade para a superação. E onde está o além do bem e do mal? Acima, aquém? No além do conceito, no além da palavra, no além da moral pautada em ‘comando-obediência’, no além da negação do homem e da vida. E é terminante e demasiadamente humano. O ‘além’ de Nietzsche não é, já se disse, transcendental, sobrenatural, fantasmagórico, inteligível, niilista, perfeito, acabado, verdadeiro. Esse além é o infinito do homem em possibilidades. É o ultrapassar dos valores tacanhos, vilipendiadores da vida, do próprio homem. Não é tão-somente a crítica à moral paralisante, mas um cruzar de muitos céus, de muitos ideais; é o destruir de muitos ídolos, de muitas convicções ‘certas’.
Como descreve o filósofo, nesse livro, (p. 12): “Reconhecer a inverdade como condição de vida: isto significa, sem dúvida, enfrentar de maneira perigosa os habituais sentimentos de valor; e uma filosofia que se atreve a fazê-lo se coloca, apenas por isso, além do bem e do mal.”
É nesse eixo sem começo e fim que se funde a idéia de transmudar valores; é por essa senda periclitante e sinuosa que percorre o espírito livre, o imoralista, o super-homem; é nessa idéia que se perde e que se encontra, sem se prender ou desprezar-se, a vontade de potência. E nela se firma e se multiplica o homem; dela advém o homem como o seu próprio experimento e anseio de transmudação, de sobressair-se. E o que é o homem? A fonte e o desejo de vida; a soma e o esgotar-se; o bálsamo e a doença; o olho e o observado; a fera e a presa; o, eu, o si e o outro.

criados e tragos

CRIADOS E TRAGOS

apascentar a criadagem de dentro
revigorando com o trago do cigarro
e eles ruminam sonhos que não mais lhe pertencem
sonhos em desuso desatino
dá-me outro trago
que as cinzas me esperam
dá-me outra praga
que me venha como cura
a criadagem desavisada regressa
e prepara a festa pelo meu retorno
todos os dias retorno
e eles não me acham
dêem-me mais um cigarro
em troco de nada
nada tenho a não ser
o erro crasso claro cretino
de ser mais um nel mezzo del camin
vagando viajando vendendo
como esmola minha pele
meu riso meus nervos meu sono
meu sano sono sem pressa
meus santos
dá-me uma cigarrilha
para esconder na fumaça
o destino perdido e desacostumado
dá-me pão e água
para que não morra
para que rumine mais alto
e bravamente sem regalia
sem cantoria sem apelo
havia uma pedra
duas outras mais
avalanche de pedra e de gente
multidão
socorro, quero mais um cigarro
e fugir como cigano
e me acordem quando as cinzas chegarem
a criadagem dorme como gado à espera do açoite
como gado pastando
à espera.

1.6.05

21 gramas

Talvez a melhor resposta para os questionamentos do personagem interpretado por Sean Penn neste filme - 21 gramas - seja: A vida vale muita coisa. O que não vale é o quanto você paga por ela e o quanto você se desperdiça nessa tentativa. Que limites nos separam da morte que dilui todas as certezas antes visitadas e antes acreditadas? Como subverter a armadilha de nossa falta de redenção e de salvação. Leia Paulo Coelho, leia dalai-lama, leia a pilha toda da moda-mídia dos livros de auto-ajuda e tenha seus cinco centavos de troco. Isso vale mais que 21 gramas. Compre pastel na esquina e morra infartado numa noite tão bela e tão triste, ao som da Sonata ao luar de Beethoven. Isso vale 21 gramas. Desabar em pranto quando o incenso não nos fez esquecer os problemas mesquinhos de nossa existência. Isso custa 21 gramas. Deserção. Sofrimento. Solidão. Dinheiro. Sentimentos falsos jogados nos cassinos de nosso cotidiano e à venda no atacado de nossa televisão refrigerada e particularmente asséptica e feliz. Isso vale imensamente 21 gramas, sem mais nem menos. E somos mais? Que valores nos dão? Que valores temos? O que quer dizer o número 21? E quantos gramas nos sobram ao sermos enterrados numa grama que nunca vamos ver mais verde? Que sombras nos acompanham quando imbuídos de uma felicidade neutralizada pelo primeiro maremoto de tolices e desamores pela frente? Onde está a balança que nos avalia e que nos confronta com nossos olhos no espelho. O velho morre de caduco e de adoção do pelo tédio. Morrer. Calar. Definhar como a rosa na janela de um quadro esquecido. A natureza morta agüentando firme. Transeuntes em transe. Hecatombe. Vigília. Última dose de uma droga revigorante. Dêem-me a passagem para o lugar menos suave que o inferno e mais ardido que o paraíso artificial que nos damos e inventamos em nossas preces repetidas e em nossos desejos fartos e cheios de miséria. Soei falso? Taciturno? Bombástico. Poeira de palavras acres? Isso vale 21 gramas.

Para início de conversa

Esta saiu de uma metareunião que não chegou a quase nenhum lugar, a não ser este...

AULA INAUGURAL SOBRE A EXISTÊNCIA DE ESTUDOS SUJEITOS A OBJETOS TEÓRICOS E PRÁTICOS PARA A INFÂNCIA FELIZ E A VELHICE DURADOURA E DOURADA DA FACE REPLETA DE RUGAS SONHOS MASSAS E NENHUMA IDÉIA PRESA NA CABEÇA OU EM QUALQUER OUTRO LUGAR.
OU
A TEORIA SUBVERSIVA DO SER SEM PROBLEMA
OU O DELÍRIO DO EMPIRISMO BARATO
OU A SURRA QUE NOS DAMOS QUANDO CADUCOS OU AINDA SÃOS
OU
O TÍTULO À PROCURA DE UMA OBRA
OU A OBRA À PROCURA
OU MELHOR (OU PIOR)
A PROCURA

Coisa laboratorial a questão da droga
a práxis libertada da teoria
marcapasso da vacina
se não puser o lugar na falta ampliada
parole inutili
adequar-se à estrutura mental
ela fala até assim:
- estudos subordinados, famigerados
com objetivos diferentes
é o seguinte: seria, por exemplo,
qualidade de vida dos pacientes.
Sintomas: estudos retrospectivos,
Coleta de dados sem análise ensaiada,
Mas que trazem respostas adicionais
Ao nada de que somos derivados.
As questões abordadas:
Originadas na origem da questão original.
Dividir, planejar: subestudar.
Da diferença um título de nobreza
Nos é validado.
E tirado.
Seguindo os mesmos passos:
é uma questão essencial.
Replicar-se, complicar, calcular, excitar,
Explicando-se sem parar;
Não é a mesma metodologia.
O diferencial: categoria subumana estudada.
Um livro todo sobre isso, para que vou ler?,
E saberei de tudo.
Novamente, a pergunta original:
São essas coisas as importantes?
A própria universidade: como?
Um profissional maduro 24 horas com o paciente
Deleite de se divertir:
O nível tóxico da droga:
Só você pode perceber isso.
Funciona como advogado do diabo:
A questão da ética,
Não uma questão de protocolo.
Como ser? Como não ser?
Como ser não-ser? Como não-ser?
É contraditório: esta visão está mudando.
Necessária é a observação da evolução do câncer.
Algo que se vivencia: veja bem:
- câncer! Algo que se vivencia e que não se vê bem,
nem se sabe onde, nem por quê?
Desenvolver o senso crítico é interessante.
Comecei a estudar tais linhas pelo avesso:
Aprendi a ler: há uma cadeira com metodologia científica.
Nela não sente, e sinta.
Publicar, eis a questão; senão não se recebe o diploma.
Você não sabe, você não sabe.
Você não sabe que é nem se é, e já foi.
Será autor do seu trabalho.
Ou co-autor?
Ser igual. Igual. Como não-ser?
Uma via de mão-dupla: a nossa proposta é essa.
Forma de avaliar a fôrma de onde não se ultrapassa:
Avaliar a nossa produção.
Como ser não?
Há de haver no comitê alguém que dê um auxílio.
É uma via de mão-dupla.
Mas só se precisa de uma: aquela que dê auxílio
Ou um adeus menos miserável e nulo nos eixos
Das operárias abissais.
E se não der? Como ser não-ser?
Essa parte, essa parte específica:
A quem cabe? Quem vê? Quem lê?
É desgastante. Você pára. Você espera.
Mas...
Com isso, você espera que essas coisas não aconteçam mais.
E nada acontece mesmo, só o mesmo.
Vai ser uma ajuda mútua.
Algo a comentar?
Peço desculpas. A gente vai terminar.
No começo. Como não saber e não ser?
É uma ajuda mútua: é tão interessante.
São coisas simples: uma coisinha pequena. Urge cuidado.
Ruge. Foge.
Por exemplo: máscaras, materiais, sacos plásticos, densidade,
Ambiente fechado, tempo correto, solução adequada, formulário.
Não cresceu nada: isso reforça uma das teorias atuais.
Se artigo guardado, em contato com água,
Perto do fim da validade: o que é que se faz?
É a embalagem. A integridade. O tempo.
Avalia-se o nosso trabalho e pronto:
Medida de segurança.
Camisinha nas camisas-de-força.
E se a máscara descola?
A camisinha estoura?
As camisas fora do campo de força?
Parada cardíaca.
São coisas simples, bem simples,
Mas são estudos, estudos.
Leia. Como não ser? Você não sabe.
É? Seja? Você foi.
Como fazer. Você não sabe como não-ser.
Alguma coisa mais?
Gente, então, até a próxima.
Você foi fomos somos e vamos
Mesmo sem ir.