4.1.06

poesia

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Alguém lá fora dorme meu sono,
Ama minha mulher e aproveita meu tempo.
Alguém restitui a falha que ajunta
E me diz que ainda é noite,
Quando tarde para tudo.
Alguém me ama lá fora
E me dá a lua: a última coisa que me resta.
Alguém tenta me ser alguém lá fora,
E agora, já que é hora, vou partindo
Esse alguém para que eu não parta
E me acabe a lua, o tempo e o resto.

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vou parar por um tempo
escrever não adianta
nem adianta o tempo
que porventura não pára
alucinação deserta vivida
estou saturado de objeção
e preço incalculável de loucura
é preciso amadurecer
por isso não se pode escrever
nesse enquanto
e no outro vamos dançar
fazer música
pintar
rememorar os velhos momentos
esquecidos e vendidos no mercado
o sabor do tédio é melhor com esquecimento
e sons já vencidos e um vinho safra qualquer
já não posso clamar à deusa
aos seres abstratos
ao tal do idealismo
ou outros ismos que me respondam
em notas reverberadas de palavras
só saem amontoados de asneiras
pior que as que julgo dos outros
é preciso estancar o sangue
e surrar qualquer idéia
pintando-a de nova
numa nova valsa
mas sem ninfas
sem marés que nos acolha
como?
Como hei de?
Como? Ei, é preciso dar um tempo...
Mesmo que o Tempo seja o cajado
Que nos dê a pancada da vida.

POESIA EM DÓ MAIOR

O que faço de ti?
Ponho-a em algum dos bolsos
E derreto-a em vinho.
Quebro-a em vinte mil pedaços
E empurro-a num saco de vidro,
Arrebatando-a, brandindo-a como hino.
Como-a sem molho, mesmo sem fome,
Escolho-a entre as damas para dançar
E vago no deserto de sua fúria
gélida e risonha.
Meto-a num veículo em movimento
E fujo para a lua, onde ela espera,
E morro na tentativa de tentar.
Desço-a pelas escadas e ela me derruba,
E levo-a pelas esquinas,
Alegrando-a com as vitrines.
Musa de gelo, menina,
Criança, circense,
Doente, donzela,
Maldita, sozinha,
Pantera, olho nu,
Máscara.
Que faço de ti, tristeza?
Desfaço?
Faço?
Refaço?
Já não disfarço
E tu não somes
A me consumir,
Imunda, abjeta, vil.
Há horizontes mais belos que este
E tu não vês comigo o que vejo.
Há noites mais frias que esta
E tu me segues sorrindo.
Há dias, há dias, outros dias,
E tu segues, passo a passo,
Ditando os versos de tua ampla falta de poesia.

CALAR

Calar, coração, calar, essa é a mensagem da missiva que te enviam,
Essa é a sorte que te gritam.
Calar um coração que se abate com um levíssimo sopro de vento,
E os dentes antipáticos da vileza do mundo o fazem taciturno
e perdido, no alheamento em que descobre que nada há a descobrir.
Calar o coração que jaz de pedra e reluz ouro pintado nas
diuturnas sinfonias inacabadas,
Represando em obsessões apaixonadas.
O zum-zum-zum do espaço traga-o
E um realejo cantarola seus finos passos,
seu doce réquiem de lembranças.
Cobrar do coração a astúcia mambembe das feras,
Partindo sem deixar rastro até o sepultamento.
A astúcia inerte, a astúcia, coração,
A astúcia que em vão te assusta.
Centrar no coração os ditames e as lamúrias do outro
E fazer-lhe ouvinte para adoecer menos pelo desencanto,
E encantar-se mesmo por isso,
Parecendo dono de alguma coisa menos esquisita.
Calar, coração! O que te pedem é fácil: é calar, apenas.
Calar tua boca e apunhalar teu ventre, esconder a tua sombra.
Cala, coração, e saiba que todas as batidas
estrondam num céu que não conheces.